sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Aventuras Anônimas VI

***

- Nem chegamos a ver as caravelas voadoras. Eu nunca as vi, na verdade. Arafat, sim – era Aldebaran, sentado tão confortável quanto estava antes de toda guerra, nem parecia que a poucos minutos ele e Ivny haviam se atacado a ponto de um arrancar a vida do outro – Viajamos rápido, mas desviamos do caminho graças a essa estúpida cabeça.

Estavam sentados próximos a lareira Ivny, Golias, Koku, Hildegrim, Aldebaran e Arafat. Ah! E, é claro, a cabeça. Ela repousava como um macabro prato de comida em cima da mesa. Hildegrim não participava da conversa, apenas se reservava a olhar hipnotizado para a chama que ardia ali, pensativo, com a única mão que tinha a servir-lhe rum.

“Tudo vai ficar bem agora. Prometo não dar início a outra peleja enquanto estivermos na sua taverna, velhinho”, explicava-se Aldebaran. Realmente simpático. Mesmo fulo da vida, o gordo taverneiro assentiu, afinal, havia visto os guerreiros de fogo e gelo agirem antes, impulsionados pelo nada. Não iria arriscar. Fez mais do que simplesmente ignorar: mandou que suas assistentes servissem melhor aquela mesa do que as demais do Dragão Empalado. Essa predileção, junto ao medo de ocorrer uma nova disputa entre aqueles visitantes, fez com que muitos que estavam ali presentes antes, desistissem da noite na taverna. Não importava, Aldebaran e Arafat bebiam e comiam muito. Tinham quilos de peças de ouro para gastar ali.

- Nunca faço escolhas em vão! – reclamou a cabeça –se vocês não estão agora, em Chattur’gah, lutando contra uma rainha dos dragões negros, era apenas o destino de vocês.

- Hum... um destino levemente manipulado, não é Hidro? – a cabeça, então, tinha um nome – deixando esse assunto de lado, afinal ele já está no passado mesmo, quero dizer a vocês que não era a minha intenção machucar o pobre aleijado. Muito menos fazer ele chorar.

- Ele não é um “pobre aleijado” – corrigiu Ivny, indignada – é um aliado.

- Sim, sim. Que seja. É uma pena que tenha acontecido isso com ele. Aliás, porque ele se tornou esse saco de batatas?

- Numa luta contra um warg – respondeu Koku, surpreendentemente ansioso para participar da conversa – o bicho arrancou seu braço e furou seu olho numa única mordida.

- Ainda há uma chance para ele – argumentou Hidro – houve uma chance para mim, que sou uma cabeça, mas eu e Arafat fizemos um acordo.

Ivny, Koku e Golias não entendiam nada. Ficavam igualmente abismados ao ver aquela cabeça falar tão simplesmente.

- Existe ao sul destas terras, um lugar chamado Cidadela de Ferro, bem próximo à pantanosa floresta cinzenta. O lugar lá é diferente de tudo que vocês possam ter visto na vida. O ar é amarronzado como ferro enferrujado e o chão é feito de quebradiças placas e pregões de aço. A cidade inteira está emoldurada de engrenagens e pitorescos relógios com ponteiros gigantes. As pessoas de lá vivem cobertas, protegendo seus narizes da eterna fumaça. O governador de lá é um sujeito misterioso no qual dão o singelo apelido de “Barão da máscara de ferro”. Ele é um criador de golens: criaturas feitas de metal, madeira e pedra, tão conscientes quanto eu ou qualquer um de vocês.
Hildegrim ouvia o diálogo enquanto sentado de costas ao grupo.

- O tal barão realiza implantes e enxertos. Um olho de vidro ou um braço mecânico para o seu peão – explicou Hidro diretamente para Ivny – assim como um corpo inteiro de parafernálias para mim.

- Porque vocês não vão até lá, então? – perguntou Koku, curioso.

- Ah, não! Eu e Arafat temos medo de qual possa ser o preço dessa ajuda. Temos muito a perder, seu amigo não. Ele parece ter perdido tudo na vida – comentou a cabeça, sem lamentos – Continuaremos assim, eu sento uma cabeça e Arafat sendo um corpo. Eu serei sua língua e ele será meus pés. Até onde der.

- Ideia terrível transformar gente em máquina – intrometeu-se Aldebaran – na minha terra, isso jamais foi visto.

- E de onde você é? – sempre Koku.

- Bom ter perguntado, menino – fala Aldebaran satisfeito (como se não tivesse insinuado essa pergunta) – Sou de Nevaska! Nasci e vivi lá por muito tempo.

- Nevaska? – Koku não conhecia.

- Sim, o continente de gelo. Tão frio como o sétimo inferno. Minha aldeia aprendeu a dominar o fogo para que o vento gelado não nos fosse eternamente uma praga. Dizem de minha terra que é tão fria que, quando alguém morre, sua alma se congela e se torna uma com o vento gélido. Por isso que a noite, lá, todos escutam os gemidos lamentosos de infinitos espíritos.

- Porque viver em um lugar assim? Porque sua aldeia não mora em um lugar menos perigoso?

- Longa história garoto – respondeu Aldebaran com um tom mais sério no rosto – Minha aldeia venera uma deusa chamada Dama Frígida. Ela exige que vivamos o frio. Meu povo diz que os ventos de lá se movimentam por causa do sopro dela.

- Você não está mais lá. O que a Dama Frígida acha disso?

- Provavelmente está zangada ou, talvez, simplesmente não se recorda mais de mim. De qualquer forma, não devo nada a ela – Koku percebeu de cara que parecia haver uma mágoa entre Aldebaran e sua antiga divindade, decidiu não insistir no assunto.

- Porque ele não fala? – perguntou Koku apontando para Arafat.

- A língua dele foi arrancada pela “mãe” de Hidro – respondeu Aldebaran com um largo sorriso no rosto, dando tapinhas nas costas gélidas do amigo.

- Não é minha mãe. É minha mentora – corrigiu Hidro.

- Porque ela fez isso? – as perguntas de Koku começavam a irritar Ivny.

- Faz parte do que ela é.

- E o que ela é?

- Uma Baba Yaga – respondeu Hidro, friamente.

Hidro

Aquele nome provocara Ivny. A vampira arregalou os olhos, atônita. Em sua cabeça, lembranças escuras que ela temia recordar-se ecoaram. Era uma voz sussurrando em seu ouvido, avisando-lhe “Vai ficar tudo bem. A dor vai passar logo”, mas a dor continuava, como uma agulha perfurando sua carne e costurando. Costurando com a paciência de uma tartaruga.

- Vocês devem gostar de gastar tempo com conversas inúteis - esbravejou Ivny, afastando a lembrança de sua cabeça – mas nós não temos tempo para isso. Preciso encontrar meu irmão.

A vampira conseguiu arrancar o silêncio de todo o grupo por alguns momentos.

- Quem é seu irmão, criatura? – Aldebaran encerrara o silêncio.

Ivny não respondeu.

- Aensell – foi Koku quem dera a resposta.

- Ei! Esse nome não me é estranho. Não é o garoto protegido de Sigmund? – Aldebaran 
pensou alto demais.

- Quem é Sigmund? – Ivny, apressada, começava a se interessar pelo assunto.

- Um poderoso mago – respondeu Hidro – muito conhecido por causa de seus estudos.

- A teoria do caso – completou Aldebaran.

- A teoria do acaso – corrigiu Hidro.

- Porque ele protege meu irmão?

- Quem sabe? – respondeu Hidro – talvez reconheça no garoto algo que não encontrou em 
outro arcano. Ingenuidade, talvez.

- Como faço para encontrar meu irmão, ou Sigmund?

Hidro e Aldebaran se entreolharam duvidosos

- A melhor forma é esperar aqui mesmo – respondeu, enfim, Hidro – como estamos esperando. Uma hora ou outra Sigmund ou seu irmão acabarão por topar na cidade dos anjos de pedra.

- Estamos no caminho certo, Ivny! – exclamou Koku com um olhar brilhante no rosto.
“Estou no caminho certo. Só preciso de paciência” pensou Ivny.

“Eu a terei?”

***

Ivny e Golias já haviam se ausentado. Koku e Aldebaran foram os últimos a se despedirem da noite na taverna.

- E quanto ao Arafat? – perguntou Koku, levemente embriagado. Ele havia sido convencido por Aldebaran a provar algumas canecas.

- É perigoso falar sobre o Arafat. Atrai coisas – respondeu o guerreiro de fogo, sussurrando e cuspindo descontroladamente.

- Como assim?

- Ele atrai coisas. Atrai coisas, entende? Como posso explicar? – Aldebaran ficou pensativo por um longo minuto - ... espero que Zarast seja forte o suficiente, sabe? Pra resistir as coisas, entende? ... as coisas que Arafat atrai.

***

Golias arrastou uma cadeira até bem próximo da lareira e sentou-se. Ao seu lado, Hildegrim mantinha-se cabisbaixo, entregue aos piores pensamentos. A madeira resistia ao fogo que ficava cada vez mais fraco. O meio gigante também passou a contemplar a fogueira.

- Porque você a segue? – perguntou Hildegrim, quase murmurando. O efeito mais forte da bebida tinha sido sanado a uma hora atrás. Agora era momento de lamentação.

- Conheci o irmão dela – Golias respondeu após uma pausa de quase um minuto – Aensell me ajudou com mais do que podia. Eu o abandonei. Não quis vir até aqui, com ele. Quem sabe o que aconteceu com o garoto?

A madeira estalou, as chamas se extinguiam. A fogueira apagou. Só restou o sinal de fumaça e uma teimosa ardência no interior de um carvão. O taverneiro não deu sinal de que iria alimentá-la. Era tarde da noite, algumas janelas da taverna já estavam fechadas e o público àquela hora era quase nulo.

- Me arrependi -  continuou Golias – Me arrependi no mesmo dia. Era tarde.

Hildegrim apenas escutava em silêncio.

- Então, ela apareceu. Me disse que era irmã dele. Que o estava procurando. Disse de tal forma que, imaginei que ele precisasse ser protegido.
Silêncio.

- E eu, Golias? O que estou fazendo aqui? – já não importava o fato de não haver chama. O ato desta se extinguir era apenas uma poética alusão à vida de Hildegrim. Apagada.

- Meu povo acredita em destino. Uma pedra pode sustentar o peso da montanha. É isso que eles dizem.

- Não entendo.

- Nem eu.

***

Um transeunte andava a assobiar pelas ruas da ala inferior de Zarast. Em sua mão havia uma moeda. Com presteza ele a lançava no ar. Ela rodopiava no voo e caía novamente, nas mãos do andarilho.

Distraído em sua andança, aquele andarilho estava. Não deu outra. Esbarrou em algo. A moeda lhe fugiu das mãos e caiu a tilintar no chão. O dono dela a observou girar como um pião. Ele estava tenso, como se esperasse desesperadamente o resultado. A moeda parou e o andarilho desaprovou o ocorrido. Ligeiro, correu até a moeda e a apanhou, segurando com a força do punho fechado. Procurou o obstáculo que ele havia esbarrado. Era Arafat.

- Bom dia – o andarilho desejou, com um sorriso disfarçado no rosto e, a passos apressados abandonou aquele lugar.

Arafat não respondeu, apenas imaginou o quanto aquele sujeito era estranho.

***

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