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quarta-feira, 9 de maio de 2012

Contos de Draganoth - Asas no meio da tempestade


Feng, samurai livre do serviço ao Imperador Tigre 


Asas no meio da tempestade

                Feng vigiava as costas da carruagem. Logo de manhã ele havia previsto que iria chover mais tarde, mas com o cair da noite, os pingos inocentes de chuva viraram cascatas violentas. Era uma tempestade, em plena escuridão, nos arredores de Asura, onde dificilmente chovia tanto, porém, naquele momento, o cair da tempestade não impressionava o velho samurai – sabia que o destino faria de tudo para que aquele nascimento não se realizasse. Ele olhou para o interior da carruagem coberta e protegida da chuva, e viu a mulher que ele, de alguma forma, conseguiu convencer a juntar os trapos e fugir do vilarejo de Utoa, onde ela havia nascido e crescido. Junto a ela estava uma parteira umedecendo panos grossos em uma bacia de cerâmica. Logo atrás da parteira havia a parte frontal da carroça, aquele que estava conduzindo os cavalos era seu filho, Esao, que mal terminara o treinamento com espada.

                Feng ainda vislumbrava todas as noites parte do sonho que ele tivera há um mês quando ainda vivia no Palácio do Tigre, no centro do reino de Asura. Ele servira ao Imperador Tigre na juventude e participou da maioria das conquistas do reino, por isso, o próprio Imperador ficou impressionado quando Feng abdicou de sua riqueza e tomou rumo ao vilarejo de Utoa. É claro que seu filho também se admirou, afinal, o velho samurai havia declarado que nunca mais empunharia sua katana novamente, mas, ali estava ele. Desde que saíra do Palácio do Tigre ainda não havia manejado sua arma contra algum inimigo, mas ela estava sempre a postos. De todos os tipos de armas criadas em Asura, a katana era a mais mortal, só os mais valorosos samurais carregavam ela em combate, sua lâmina era limpa e possuía apenas um dos lados afiado, o que, para alguns, seria uma desvantagem notável em relação à espada bastarda dos reinos ocidentes. Mas os samurais de Asura guardavam o segredo indispensável para a fabricação de uma boa katana, a arma era levemente curvilínea permitindo que a lâmina se projetasse no ar de forma diferente das demais armas, o que a tornava muito mais mortal nas mãos de um combatente bem treinado.

                O velho samurai mal sabia se conseguiria manejar sua arma com a perfeição que fazia antigamente, mas estava disposto a descobrir isso contra qualquer inimigo. O horizonte trovejou e o barulho do estrondo somou-se aos gritos de agonia da mulher que dava à luz – Feng já sabia, mesmo antes da parteira afirmar – o bebê nasceria logo, mas, ao invés de se importar com o parto ele tocou o cabo de sua katana e encarou a escuridão recheada pelos pingos grossos de chuva. Ele enxergara alguma coisa na imensidão escura e gotejante.

                A parteira, tão velha quanto Feng, começou a praticar sua profissão, usava os panos úmidos e secos, esfriava-lhe o corpo e enxugava-lhe o suor insistente tentando acalmar a grávida, entretanto, a velha sabia que aquele nascimento não seria fácil. Os gritos de sofrimento acordaram a escuridão e mostraram o motivo pelo qual Feng mostrava-se tão preparado – ele olhou a imensidão e destacou algo tão escuro quanto esta. A silhueta se aproximava com a certeza de que o que procurava estava dentro daquela carruagem. O velho samurai mal havia distinguido a forma da criatura quando pulou da carroça em movimento, sem nenhuma palavra, apenas com o manejo da katana sendo erguida e cortando as milhares de gotas da chuva que insistiam em cair cada vez com maior violência. Esao escutara o barulho da lâmina de seu pai, mas já havia sido avisado que, não importasse o que acontecesse, ele jamais deveria parar o veículo. Foi isso que ele fez, ao mesmo tempo em que temeu pela saúde do pai.

                Agora Feng podia enxergar a criatura. Ela o encarava olhos vermelhos que pareciam sangrar na escuridão tempestuosa.  O porte do demônio era maior que o de Feng. Uma couraça vermelha protegia-lhe o peito e pernas, pares de chifres cresciam como uma coroa no topo de sua cabeça , um par de asas encouraçadas, rasgadas em carne viva, cresciam seus suas costas. O sorriso maléfico era amarelo e cheio de dentes serrilhados. O demônio carregava as almas de suas vítimas queimando no fogo interior de seu corpo e Feng pôde vê-las agonizando. Carregava uma arma, muito maior em tamanho do que a katana de Feng, ela tinha uma lâmina negra, mas não possuía uma forma descritível, assemelhava-se a ossos humanos tingidos de negro como carvão, cercada de espigões afiados e retorcidas que exalavam um calor infernal.

- Saia da frente humano! – intimidou o demônio.

                Feng não se moveu e em sua mente ele notara que aquela foi a maior provação de coragem que ele pôde sustentar em toda a sua trajetória de vida. Encarar aquela criatura, nunca antes vista ou imaginada por ele, era pior do que encarar seus inimigos do passado. Ele cerrou os dentes, posicionou sua arma predileta e mostrou somente com um olhar a resposta que o demônio não desejava ouvir.
- Vou arrancar-lhe a pele e mastigarei sua carne! Devorarei sua alma como devorei a de seu filho! – gritou com escárnio o demônio, pois sabia que Feng se orgulhava de sua cria e nada mais irritava o samurai do que mexer com sua única família. Entretanto, Feng esperava esse tipo de desdém de uma criatura abissal como aquela.

- Derrotarei você demônio e libertarei as almas dos inocentes que você matou. – respondeu o velho samurai a altura.

                O demônio não queria mais conversa, devia agir rapidamente e sabia que aquilo que estava na sua frente era nada mais que um empecilho. Abriu as asas empurrando uma rajada de ar que misturava o calor exalado pelo seu corpo e o frio dos pingos de chuva. O samurai ergueu a katana acima de sua cabeça revelando a postura do tigre, a técnica de combate de seu clã. O demônio despencou sobre seu mísero oponente que tentou um contragolpe preparado contra o pescoço da criatura sem sucesso. A lâmina disforme do demônio atingira o ombro de Feng e a criatura resvalou a arma até que seus cravos mais profundos se enterrassem fundo na carne do samurai.

                O sangue espirrou e misturou-se aos pingos de chuva e o grito de dor de Feng. O demônio cravejou seus pés com unhas negras e bem desenvolvidas sobre o peito do samurai enterrando até onde pôde, depois tomou impulso abrindo mais uma vez as asas para alçar um voo repentino. A tempestade prejudicava a movimentação garantida pelas asas ao demônio, mesmo assim, seus membros desenvolvidos e as escamas rubras lhe concediam a chance de usar esses membros mesmo debaixo daquela tormenta.

                O corpo de Feng foi jogado contra o chão, e a agonia tomou conta de cada pedaço de seu corpo enquanto um líquido esverdeado corria-lhe a pele e se misturava ao sangue. Com velocidade, o membro atingido apodrecia e borbulhava como o ácido. Feng imaginou que o demônio fosse direto ao encontro da carroça – e de seu filho – e tentou ficar mais uma vez de pé, mas a arma abissal do inimigo rasgou-lhe a coxa direita tão profundamente quanto no ombro. Feng havia perdido o direito de se movimentar com rapidez e o demônio tomou um segundo impulso distanciando-se dele.

                Feng sentiu o sangue ferver, a visão tornar-se vermelha e a força se esvaindo de seu corpo, forçou a perna esquerda e no intermédio de movimentação, o demônio desceu mais uma vez agora visando a cabeça de sua presa, aquilo iria matar o velho combatente de uma vez por todas – mais cedo do que ele mesmo imaginara. Feng se abaixou e deixou que a lâmina do demônio rasgasse suas costas com um corte longo e profundo ao mesmo tempo em que revidou com a katana, surpreendendo o monstro.

                 O demônio tentou um terceiro impulso, mas ergueu apenas uma das asas, a outra voava para longe com a pressão do vento da tempestade. Desvencilhou e caiu aos tropeços no chão – aquele humano havia cortado-lhe a asa esquerda com um único golpe. O clã do tigre era reconhecido por estas técnicas mortais, treinavam para que, com um único golpe, seu inimigo fosse abatido. O demônio cerrou os punhos e encostou-os no chão tomando impulso para se levantar, suas presas deixavam cair o sangue vil e quando se preparou para avistar o inimigo, o viu perto demais.

                Feng juntou o restante de suas forças, moveu-se se arrastando até o demônio e agora aplicava o golpe desejado sobre seu pescoço. A cabeça do demônio rolou no chão encharcado pouco antes de Feng decidir que agora não era a hora de morrer, tomou fôlego e olhou na direção da carroça. Ao invés de enxergar o desejado, Feng avistou um segundo demônio e, ao lado dele, mais uma dezena de criaturas com o mesmo aspecto demoníaco. Fechou os olhos, sereno, e não esperou a morte – foi ao encontro dela. Os demônios voaram contra o samurai e o último lampejo de sua espada.

                Enquanto isso, a carroça trafegava mais rápido do que podia, com as rodas de madeira saltando toda vez que encontravam pedras no meio da estrada. Estrada que levaria a lugar algum, apenas se afastaria cada vez mais do vilarejo de Utoa e de toda aquela destruição. Esao olhou rapidamente para trás, ele viu a criança nascer e a parteira depositar o bebê sobre os próprios braços de forma lamentosa, Esao notou que a grávida estava desacordada, seu corpo estava amolecido, logo encarou a verdade e percebeu que ela havia morrido no parto. Agora ele tinha outras coisas para se preocupar e tornou a olhar para estrada.

                Seu ângulo de visão se deparou com uma lança afiada que atravessou-lhe pouco abaixo do pescoço e o fez desfalecer imediatamente. A parteira, com o bebê nos braços, gritou aterrorizada, uma figura demoníaca entrou na carroça. Ela abraçou forte o recém-nascido e esperou a morte, mas o destino a surpreendeu e a carruagem, sem destino, saiu da estrada segura e tropeçou num conjunto de pedras elevadas fazendo com que tudo desmoronasse. Seguiu-se os segundos de desespero até que a carruagem despedaçada encobriu-lhe todo o corpo ocultando sua presença. Mas, o que quer que estivesse lá fora, não iria desistir tão facilmente.

                Os cavalos dispararam contra a escuridão até desaparecerem completamente. Sufocada, a parteira chorava baixo em agonia e terror. O demônio de lâmina disforme golpeou os destroços do veículo e a lâmina desfiou a madeira com facilidade. A ponta da arma rasgou levemente o ombro direito da mulher, mas foi o suficiente para causar-lhe uma dor lancinante. O demônio descobriu onde ela estava, com o pé direito virou o corpo da parteira que estava deitada de bruços ainda soluçando de sofrimento. Para a surpresa da criatura, ela não segurava o bebê. Ainda com o pé espinhento em cima da mulher ele vigiou os lados até encontrar a localização da criança.

                Ela estava nos braços de um desconhecido, bem acomodada, a água da tempestade lavou-lhe o sangue do parto e a aura de bondade de Amil Gaul, seu salvador, lavou-lhe o desespero concedendo-lhe repentina calma. O demônio, por mais orgulhoso que fosse, ficou intimidado com a presença do celestial, olhou a escuridão, porque este era capaz de enxergar nela muito mais do que os mortais – só encontrou uma resposta ao avaliar de onde o sujeito havia saído.

                Os rastros de Amil Gaul, na verdade, eram os restos dos demônios mutilados que ele havia derrotado em seu caminho. O demônio largou a espada e ajoelhou-se como que pedindo clemência.
Mas o pedido não foi atendido.

As Hordas do Abismo

sábado, 28 de novembro de 2015

Três Escamas e o último voo



- Ragnar, acorde! – aconselhou Aramyn, agora de joelhos perante um corpo de olhos abertos e íris acinzentada como se parte da alma estivesse se esvaído do corpo. O clérigo de Splendor enraizou as próprias mãos no corpo do anão e recitou as preces mais poderosas de cura enquanto os malditos relâmpagos não paravam de mandar seus urros do céu. A magia divina era insuficiente. Aquele lugar tragava a fé de qualquer um e Aramyn manteve os olhos fechados e, em silêncio, lamentou o inevitável.

            Freya agora decidira gritar, a raiva rompera seu receio e agora sua missão era descer a lâmina de seu pesado machado nos orcs e ogros que a terra lamacenta vomitava. – Fique de pé, clérigo! A luta não acabou! – repetiu pelo menos três vezes como se aquele fosse um ritual que permitia que sua força de vontade continuasse viva e agressiva o suficiente para suspender a cabeça dos inimigos.

- Que grande merda! Eles são muitos, a gente tá se fodendo aqui! – reclamou Jack, o halfling enquanto saltava acrobaticamente entre os inimigos e deslizava o fio de seu manto em seus pescoços.
 - Solta logo uma daquelas magias explosivas, mago inútil! Você se esqueceu de como fazer isso justamente agora!?

- Por mais que meu treinamento tenha sido extremamente rígido em relação à concentração de minhas magias, esse ambiente é completamente voltado a silenciar minhas capacidades. – concluiu Varuz enquanto sentia o formigamento na ponta de seus dedos. Deveria ser um calor que se romperia de suas mãos, mas a soma de todo o rugido tempestuoso impedia a realização da magia - Não conseguem ver? Essa tempestade não é algo natural! É como um imenso ser criado para interferir nas nossas habilidades. Uma luta aqui é impossível de se vencer! Eu poderia dizer que sairemos derrotados daqui se não pensarmos em uma estratégia definitiva ou fugirmos.

- Que conversa é essa? Ainda somos os heróis aqui! Os inimigos não têm chance! Diga-me alguma coisa, índio desgraçado! – bravejou o halfling pelejando entre esquivas e ataques. A bárbara estava a poucos metros dele, sendo esmagada por uma clava enorme de ogro e se esforçando para erguer-se e contra-atacá-lo nas virilhas.

            Khali disparou uma de suas flechas na direção dos menires. A seta foi facilmente raptada pela ventania, como o indígena havia presumido. Ainda menos que o Azanthe, Khali não conseguia disparar suas flechas com eficiência graças à tempestade. Ele observou as flechas afiadas do arqueiro aliado descreverem caminhos aleatórios e, vez ou outra, atingir a perna ou o braço de um dos gigantes.

- Os xamãs nos menires! Aquelas pedras pontiagudas estão potencializando os raios. Minhas flechas nunca alcançarão lá. Nem mesmo Azanthe poderia fazê-lo.

- O inimigo reconhece cada uma de nossas habilidades – indagou Aramyn tornando a ficar de pé e lutando contra a morte aliada – Nos trouxe exatamente o desafio que impossibilita o uso de nossas magias e ataques. É uma luta impossível para os poucos fervorosos.

- Então, aqueles xamãs são o grande problema? Vou derrotá-los punho a punho e esse choro da derrota de todos vocês vai cessar! – difamou Jack e saltou sobre um amontoado de corpos mutilados.

- Jack espere! – gritou Aramyn, mas, entre um pé e outro, o halfling já se distanciava ignorando o alerta.

            Eis que os relâmpagos desabaram sobre o pequenino e cortaram o ar velozmente. Jack era ágil e, por pouco, esquivara-se da tempestade, mas, por fim, sentiu-se esganado por um ogro que se aproveitou do barulho ensurdecedor e atordoante do arco voltaico para surpreender o halfling. A mão gigante e enlameada cobria toda a cabeça de Jack e o espremia sem muitas dificuldades, sufocando-o e lançando-o contra o chão para então pisoteá-lo. Tarefa que não conseguiu graças ao atrevimento de Freya ao interferir com seu machado no meio dos dois.

- O que foi, Aramyn? – Jack perguntou meio atrapalhado enquanto se desenterrava da lama.

- Faça o que tem de ser feito, então, herói. – respondeu o austero clérigo, agora com a responsabilidade de guiar dois grupos.

            Jack retribuiu o pedido com um sorriso desajeitado e de confiança. Assentiu afirmativamente com a cabeça e continuou a investida contra os orcs xamãs.
Agora o resto do grupo era um plano de fundo que ficava cada vez mais distante para Jack. Mais orcs brotaram das águas sujas. Eles esperavam não tão pacientemente a primeira leva de sua raça sucumbir aos heróis e agora chegara a vez deles. Tinham um único alvo.

            O primeiro aproximou-se afundando seus pés pesados e tentando realizar um encontrão com o ombro. Jack saltou sobre ele usando uma de suas mãos como apoio nas costas do orc e iniciando uma acrobacia que terminaria por deslizar até o meio das pernas de um segundo. Eles estavam ficando para trás, mas, que se dane! O objetivo eram os xamãs que ele iria derrubar no final de sua corrida e estes ainda pareciam distantes.

Quatro orcs se avolumaram interceptando o caminho do halfling. Então, uma sombra se desmanchou no meio de tudo e saltou com sua lâmina finíssima sobre as gargantas das vítimas. O manto de escuridão corria ágil, ignorando o peso da chuva em suas vestimentas encharcadas. Saltava com presteza e tornava-se um borrão que aparecia e se apagava repentinamente. Apenas uma vez olhou para Jack e tinha a face de um demônio, pois esta era a máscara que o Ceifador usava.
Jack aproveitou-se do caminho livre provocado pelo seu aliado e encarou o objetivo com um riso que qualquer um poderia discernir como prepotente. A sombra aliada parou e seu manto manteve-se caído sobre os ombros enquanto a máscara deslumbrava algo que nascia das sombras projetadas pelos menires.

            O halfling focou a imagem e a viu transformar-se num par de asas coriáceas que se abriam e esticavam com o respaldar da ventania, moldando um corpo dracônico preenchido de escamas negras que trilhavam o caminho até uma língua bifurcada encharcada de ácido e um par de olhos vermelhos que, mesmo na escuridão e chuva, eram vivos como o sangue que acabara de brotar de uma vítima.
- Vocês estão brincando comigo!? A droga de um dragão agora não, né? – reclamou Jack para o nada e foi respondido pelo regurgitar da imensa criatura que usava os menires como apoio de suas grotescas e afiadas garras.

            Juntos, halfling e Ceifador rolaram para os limites da baforada ácida do dragão e notaram o líquido esverdeado misturar-se ao pântano que era as poças de água e lama no meio do caminho.
- Mudança de planos... – falou para o Ceifador – você mata os orcs xamãs. Eu encaro o dragão.
... e esse foi o combinado.

***

Relato: Jack  




            Estava claro que o mundo precisava de heróis quando eu nasci. Também estava claro que o grupo precisava de um herói naquele exato momento. Foi por isso que eu corri para o confronto e terminei encarando mais um dos filhos da rainha dos dragões negros. Então, sabe qual é a diferença de um simples aventureiro para um herói? Vou te dizer qual é: a audácia. E isso eu tenho muito!

Sabe... eu não tinha dúvidas de como tudo aquilo ia terminar, principalmente quando eu tomei as rédeas. Afinal, quantas vezes eu salvei esse grupo? Por isso chamei a atenção do bicho enquanto o Ceifador percorria sorrateiro o caminho até aqueles malditos xamãs apelões e seus raios. O dragão veio até mim, com garras e presas, então eu saltei acrobaticamente e me deixei levar, inteligentemente, pelo vento – já havia passado algum tempo de treinamento estudando essas rajadas de ar e não foi assim tão difícil notar qual era a hora certa de pular – quando me vi, estava exatamente onde eu queria estar: preso à asa direita do dragão, a cimitarra cravada na pele que brotava um sangue fervilhante.

            A minha montaria rodopiou no ar e eu me assegurei que não cairia naquele show de rodeio. As asas abanaram muito vento, mas a chuva ainda persistia em cair e molhava a mim e à criatura – suas escamas ficando cada vez mais escorregadias. Observei o campo de batalha nas alturas, de lá eu vi meus fiéis súditos golpearem os orcs e ogros formando uma montanha de cadáveres ao redor deles mesmos. Bem, tenho que elogiá-los: estavam fazendo muito bem seus serviços. Especialmente para a imbecil da bárbara que, só o que sabe fazer é bater. O mago e o clérigo tinham dificuldades para lançar suas magias, mas, era de se esperar: a magia sempre falha nas horas mais preciosas. Os arqueiros pareciam kobolds tentando acertar seus inimigos, um mais falho e patético do que o outro. Já o Ceifador estava com dificuldades para atravessar o campo de eletricidade que cercava os xamãs. Faltava a ele o que sobra em mim: audácia... eu já disse!

O dragão girou o corpo e minhas mãos já escorregadias soltaram a cimitarra e eu me vi deslizando pelas costas do bicho até conseguir segurar firmemente em sua cauda. Ali era um péssimo lugar, a cauda ziguezagueava no ar na tentativa de livrar-se de mim e até o dragão tentou me abocanhar num jogo patético de “morder o próprio rabo”. Não conseguiu.

            As escamas escorregadias me impossibilitavam de alcançar um lugar mais seguro nas costas da minha montaria quando, de repente: Zum! – uma flecha cravou ali, a poucos metros de mim. “Droga, os desgraçados querem me acertar?” foi o que pensei à primeira vista quando Azanthe disparou aquela flecha certeira. “Não... ele não pode ter feito isso em plena consciência.” E segurei a flecha tomando impulso até a parte inferior do torso dracônico. Foi aí que outro “zum” me soprou os ouvidos e outra flecha cravejou um pouco abaixo do ombro do bicho. Dessa vez foi o precipitado erê.
E aí me veio a ocorrência: Definitivamente eles não estão fazendo isso com plena convicção. Eu já havia ouvido e lido sobre isso. Sabe? Sobre como as coisas curiosamente acontecem afim de trilhar o caminho de sucesso para um herói e era claro que isso estava acontecendo naquela hora! Esperei o momento certo e apenas deixei-me deslizar a cambalhotas até a segunda flecha. Já estava bem perto de minha cimitarra novamente.

            Um raio irrompeu a poucos metros de mim. O dragão teve de se esquivar. Bem, pelo menos daquelas descargas elétricas eu estava seguro e, logo, o grupo inteiro estaria livre daquelas coisas. O Ceifador havia saltado em rodopios para dentro do círculo de eletricidade que cercava os xamãs e, para ele, ficou fácil degolar gargantas e livrar-se dos inimigos. Depois, feito uma sombra, sem brilho heroico nenhum, ele veio com algumas acrobacias baratas e tentou agarrar-se ao dragão. Como se fosse uma coisa simples. Tudo que conseguiu foi resvalar o sabre nas escamas e cair na escuridão.
Lá, do outro lado, o acúmulo de inimigos finalmente parecia ter cessado. Eu vi o índio acertar a garganta de um ogro quase a queima roupa. Depois, Aramyn estava declamando mais um de seus “blablablás” inspiradores quando o arqueiro doente e a imbecil correram em direção ao dragão que me servia de montaria. O mago estava tentando contornar sua inutilidade e, ao erguer as mãos contra o céu tempestuoso, uma concentração elétrica preencheu a ponta de seus dedos e a rajada foi lançada na direção da criatura voadora. “Que se foda o pequeno halfling, afinal, ele não está segurando no dragão, não é?” – embora eu deva confessar que o raio sequer encostou em mim e ainda atordoou a criatura, o que me permitiu saltar e alcançar minha cimitarra novamente.

            Minha lâmina havia cravado profundamente na criatura e dificilmente sairia, mesmo com meus esforços. Bem, eu não podia perder minha arma, não é? O que fiz foi puxá-la com tanta força que, por um momento, pensei que ela estava fincada numa pedra. A cimitarra não saiu, em compensação meus esforços latejaram no dragão e ele despencou durante alguns segundos, perdendo altura de voo e me fazendo ser levado pelo vendaval. Tal foi minha surpresa quando caí sobre o bicho novamente, me segurando numa terceira flecha que havia se cravado à ele em algum momento que não percebi.

Era o terceiro golpe que Freya havia dado no menir. Cortava-o como se fosse uma árvore – me lembrei que seu machado era apropriado para isso. Foi nesse terceiro ataque que a imensa pedra cheia de runas despencou. Ela chutou a rocha na direção que queria e ela desabou sobre o dragão que, por pouco, se esquivou, mas não se livrou do baque totalmente. Tive que ficar de pé nas costas da criatura e saltar na hora certa afim de me esquivar do peso do menir. Vi três escamas serem arrancadas.

            Aramyn conjurou mais uma de suas magias pouco efetivas, mas de algum jeito conseguiu instigar Azanthe a acertar o dragão negro na boca do estômago. Khali ainda estava chafurdando os orcs e ogros, embora para mim, todos já estivessem mortos. Acho que ele estava saqueando. Sei lá... não confio em índios.

Seja como for, aquele combo de ataques e danos foi demais para o dragão e o coitado decidiu fugir. Ele rodopiou no ar, livrando-se de mais ataques ao alcançar uma altura impossível para flechas e mergulhando numa escuridão densa e chuvosa que impossibilitava Varuz conjurar a magia certa.

            As asas engolfavam uma quantidade imensa de ar e isso propulsionava ainda mais o voo do dragão. Ele fugiria se pudesse. Mas, meus caros amigos: Eu estava lá!
A luta era entre mim e minha vítima. A velocidade apenas me atrapalhava a conseguir se deslocar e mesmo manter-me agarrado às escamas do dragão. Você não pode imaginar como as rajadas de vento eram fortes! Qualquer um teria sido arrebatado, mas, como eu já disse, eu tinha mais do que horas ou dias de treinamento enfrentando fortes rajadas de ar e aquilo não iria me desesperar.

 O dragão alcançou as nuvens negras da tempestade e eu senti o frio me cortar a pele. Lá em cima é definitivamente muito frio, mas, pelo menos as fortes rajadas de ar não são tão constantes e eu me aproveitei para escalar escama por escama. O bicho pareceu perceber minha estratégia e, logo, desceu rompendo as nuvens e rodopiando. Eu estava longe de minha cimitarra e o meu manto laminado não seria tão efetivo àquela disposição. Me assegurei que ficaria agarrado ao dragão até que me ocorresse outra ideia.

            Então, ele rodopiou novamente e eu deslizei de seu pescoço, conseguindo segurar em uma escama. Mas não qualquer escama! A escama que me agarrei estava bem próximo de uma parte desprotegida de seu corpo: o lugar onde três escamas haviam se soltado anteriormente. Mais um toque do destino, mas este não seria o último.

“Se, pelo menos, estivesse com a cimitarra em mãos” – eu pensei e automaticamente desviei meus olhos até onde ela estava. Presa na asa direita do dragão. Também notei outra coisa: a forte pressão das rajadas de ar começava a, vagarosamente, desenterrá-la da carne da criatura. Tive uma ideia.

- É só isso que você pode fazer, filhote de dragão? – incitei destemidamente meu inimigo e a resposta me veio rápida. Ele rodopiou pela terceira vez e eu me certifiquei que continuaria agarrado às escamas.

            Eu estaria mentindo se dissesse que estava esperando exatamente por aquilo, mas, bem, eu havia pensado na possibilidade. A cimitarra soltou-se da asa direita do dragão e cortou o ar, girando em espirais lacerantes e vindo parar na minha mão! Como as grandes histórias bárdicas contam e a plateia desconfia da veracidade, eu estava lá, presenciando aquele momento. O meu momento. Infelizmente não tinha plateia. Ou talvez tivesse! – Noroi! Agora você vai saber com quem está se metendo.

Enterrei a cimitarra na brecha das três escamas e o sangue fervilhante brotou acompanhando um urro dracônico que se misturava a tempestade. A criatura não rodopiava, nem conseguia arrebatar o vento ascendente que golpeava suas asas e, por isso, caía velozmente.

            Posso dizer que me desgrudei da criatura despencada algumas vezes, mas acabei alcançando suas asas, cauda e chifres afim de sustentar o dano da queda. O dragão se debruçava tentando evitar minhas constantes tentativas de usá-lo como apoio – como se quisesse que eu e ele tivéssemos o mesmo destino. Então, escutei o estrondo do pescoço da criatura varrer o chão lamacento, criando ondas pantanosas enquanto se arrastava pelos muitos metros que se passaram quando finalmente havia alcançado o chão e, mesmo naquele instante, o dragão se esforçava para me ver esmagado. Ele não conseguir, claro. Resfolegou, as asas partidas pararam de se debater, pulmão e coração pararam de exercer suas funções e o sexto filho da rainha dos dragões morreu comigo em cima dele!

            Precisei esperar um longo tempo até que meu grupo me alcançasse. Quando me viram, eu era um herói imponente e indestrutível, pisando na cabeça do dragão, com a cimitarra fincada em sua garganta. Nem mesmo o céu cinzento e apático daquele momento diminuiu meu brilho!

- Porque vocês demoraram tanto? – eu falei.


            

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Quéops

                O deserto de Quéops possui uma cultura tão diversificada do resto do mundo que o reino é considerado por muitos como uma terra distante e esquecida a mercê de seus próprios problemas e que nunca haverá de interferir nos assuntos do reinado central. De fato, os costumes e a própria religião do reino desértico não são vistos com frequência nos reinos ocidentais ou orientais. Lá, o deus-sol, Selloth, é o patrono de tribos nômades, guerreiros que cavalgam no deserto enfrentando suas infinitas dunas e as constantes tempestades de areia. Os nômades veneram o sol como a principal divindade – e o reino é um dos poucos pertencentes à Draganoth onde o culto a Splendor é quase nulo, embora o deus-sol e o deus do heroísmo sejam aliados de tendência.




"Não se pode fitar o rosto de Selloth e discernir os complexos detalhes de sua aparência - é isso o que os nômades de Quéops divulgam aos transeuntes desavisados do mar de areia. Os únicos que podem enxergá-lo, no alto de sua morada, acima das nuvens, são os oráculos. Estes descrevem o deus-sol como um poderoso guerreiro com asas adornadas pelo fogo que tingem o céu com a luminescência do dia. A coroa de fogo que todos enxergam ao presenciar o amanhecer de um novo dia, é apenas os contornos da figura divina, incansável e vigilante que observa o reinado atenta."  

Os nômades do deserto são um povo habituado à vida castigada pelo vento e a areia de Quéops. Usar roupas largas e arejadas é um hábito de sobrevivência, uma vez que estas previnem tanto o calor desértico quanto os protege das constantes tempestades de areia. Os nômades carregam características religiosas bastante fervorosas, eles são devotos à Selloth e costumam rumar durante dias no deserto antes de se instalarem em cidades-oásis por um curto período de tempo, acreditando que o nomadismo é uma tradição dos verdadeiros guerreiros do deus-sol e tomando essa prática como uma provação divina.


Cidades no deserto

Em comparação com os reinos centrais, Quéops possui pouquíssimas cidades erguidas em meio às suas dunas desérticas. Moldadas em mármore, marfim e ouro, as cidades-oásis são um império protegido contra as tempestades de areia, o calor e os perigos do deserto. Caravanas de mercadores traçam, quase sempre, as mesmas rotas comerciais entre essas cidades em busca da compra e venda de suas mercadorias e nômades buscam temporariamente a segurança e o conforto das sombras agradáveis e dos haréns que a zona urbana pode oferecer.

Os palácios das cidades no deserto ostentam grande riqueza e são considerados templos sagrados do deus-sol - roubá-los ou, de certa forma, obstruí-los é um crime divino. Deixando de lado a forte diferença cultural, a regência das cidades-oásis não se difere tanto da dos reinos centrais. Um sultão é um líder sábio e de exagerada riqueza, normalmente levado ao cargo de regência graças à sua linhagem e provação de fé.

Além dos grandes palácios, as Torres dos Oráculos são construções obrigatórias nas metrópoles desérticas. Lá, os mais abençoados clérigos de Selloth coordenam escrituras e estudam a posição dos astros afim de profetizar acontecimentos. O povo de Quéops acredita muito nas previsões que os oráculos podem prover e a religião os permite visitar as torres, uma vez por mês, para ouvirem breves presságios dos videntes. Os nômades do deserto, ainda mais que os demais habitantes de Quéops, acreditam nessas visões fervorosamente e fazem delas parte de suas missões divinas. 


As cidades do deserto costumam ser erguidas ao redor de oásis e a água cristalina que jorra entre as areias desérticas é considerada pura e uma dádiva aos povos religiosos crentes nas profecias do deus-sol. 

As ruas de uma cidade-oásis costumam ser fechadas e cobertas com o mais diversificado comércio - a principal fonte de renda de Quéops. O ouro e as jóias são riquezas importantes para os povos do deserto. Um templo de Selloth sempre estará adornado de ouro, rubis, diamantes e esmeraldas. A crença religiosa de seus habitantes levam a crer que o brilho que essas jóias oferecem é um vestígio sagrado do poder de Selloth.

Magos, clérigos e feiticeiros de Quéops costumam diversificar na criação de itens mágicos, inscrevendo runas de proteção e bênçãos em gemas preciosas ao invés de rolos de pergaminho ou poções mágicas - apesar de a compra e venda desses itens ainda serem comuns no reino-deserto. Nômades de Quêops costumam, com frequência, carregar pares de gemas preciosas entre seus pertences. 
Comércio no deserto

Boa parte do domínio comercial e importação de bens de valor em Quéops dá-se ao árduo trabalho dos mascates. Enfrentar o rigoroso clima e os perigos do reino-deserto não é uma tarefa comum para os desacostumados e aceitar realizar essa missão continuamente enquanto encaminha objetos de valor de uma cidade para a outra é uma missão ainda mais pretensiosa. 

Os mascates são mercadores transeuntes que realizam viagens carregando pilhas de objetos de valor, ouro e jóias. Eles também são indivíduos especializados em cobrir seus próprios rastros no meio das dunas do deserto. A dura vida pertence apenas aos mais destemidos, no entanto, os mascates afirmam que não há profissão mais livre e recompensadora quanto a deles.

Mascates costumam ser ótimos diplomatas, mas a vida os obriga a acostumar-se com o manejo de armas. Dificilmente alguém encontrará um mascate indefeso.



Comércio isolado

Tavernas, estalagens, estábulos e comércio podem ser encontrados nas rotas mais seguras de Quéops. Esses pontos isolados no meio do deserto foram criados para abrigar mascates, nômades e transeuntes durante suas jornadas. Uma hospedaria nos caminhos do deserto guarda comida, água e aposentos o suficiente para sustentar uma dezena de hóspedes. Vez por outra, um ou mais mascates permanecem nessas regiões aproveitando-se da boa vontade e riqueza dos viajantes para cobri-lhes de boas ofertas.


Sha'ir


Magia no deserto

Quéops possui uma ampla gama de opções para conjuradores arcanos e divinos. Uma vez que a magia é um elemento tido como sagrado ou profano pelo povo do deserto, magos e clérigos costumam ser respeitados ou temidos.

Feiticeiros de Quéops carregam traços da linhagem dos djinnis e ifreets. Druidas são vistos como poderosos bruxos manipuladores de tempestades de areia. Os líderes das tribos nômades frequentemente são rangers capazes de manipular magias sutis. Magos ilusionistas criam miragens arcanas que protegem cidades ou criam armadilhas para emboscar transeuntes.

Em Quéops também existem os sha'ir, um tipo de mago pactuante com os gênios dos planos elementais. Esses conjuradores realizam barganhas com espíritos naturais do deserto e são capazes de manipular magias arcanas e divinas concedidas pelos seus patronos elementais.




Oráculo de Selloth


Os conjuradores mais importantes de Quéops são, entretanto, os Oráculos de Selloth. Esses sacerdotes possuem o dom de prever acontecimentos e ler presságios. A raridade de um oráculo é tamanha que, a maioria deles, é obrigada a manter-se nas torres ou cidades fortificadas o suficiente para protegê-los.

O Oráculo de Selloth é uma bênção importante para o povo religioso do reino-deserto, eles são a prova existencial de que o deus-sol está a vigiá-los e protegê-los contra as sombras que se estreitam pelas redondezas do reino.

Entre as previsões mais comuns realizadas pelos oráculos estão: a proximidade de uma vindoura tempestade de areia, uma época de seca duradoura, a fartura dos campos e colheitas, uma praga que se assolará em uma determinada localização e os ataques iminentes das criaturas vindas do deserto-escuro. Reconhecendo um desses presságios, as autoridades de Quéops se antecipam para evitá-los ou remediá-los.


Torre do Oráculo
"Selloth, a pouco, enxergou as sombras que se estreitam ao oeste daqui. Ele me mostrou a escuridão que toma a forma da morte e escorre como água pelas dunas do deserto. Os templos de Mênfis e Sahar estão sendo ameaçados. Uma centena de lâminas deve partir ao amanhecer. Elas serão abençoadas pelo olhar vigilante do deus-sol. Haverá sangue e morte na luta contra as sombras e seus devotos devem ser fiéis e corajosos até o término da batalha. Selloth nos concederá vitória."
Perigos do deserto

Calor, insolação, tempestades de areia, fome e sede, não são os únicos problemas que os habitantes de Quéops devem enfrentar na imensidão desértica de seu reino. Existem inúmeros perigos tão mortais quanto repentinos que se escondem na imensidão de dunas.

Escaravelhos devoradores de carne, escorpiões negros e víboras peçonhentas estão entre os vermes rastejantes e venenosos que se abrigam na areia do deserto. 

Pragas aprisionadas nas ruínas dos canyons viajam como uma nuvem de maldição e impregnam as cidades-deserto com seu malogro. Mortos-vivos pestilentos rogam doenças infernais através do toque ou mordida. Lamias enfeitiçam viajantes e os encaminha para sua toca, onde são violentamente devorados. Grupos de assassinos e ladrões cercam as estradas de Quéops procurando valiosidades.


No mar de areia das regiões mais longínquas, qualquer transeunte corre o perigo de afogar-se em areia movediça ou tocas de vermes gigantes. Essas criaturas imensas ficam adormecidas embaixo das dunas do deserto esperando uma vítima que se aproxime de seus habitats.  
Os vermes gigantes são os responsáveis por apressar o efeito da erosão nas rochas montanhosas e paredões dos canyons. Suas mandíbulas afiadas e sua força gigantesca trituram rochas como uma broca perfurando o aço. As presas de um verme gigante são altamente valiosas e cobiçadas pelos piratas do deserto.

Movidas por magia, embarcações no alto deserto conseguem navegar por cima das dunas, como uma caravela poderia em alto mar. Suas tripulações, quase sempre formadas por mercenários ambiciosos e caçadores de vermes gigantes, buscam um estilo de vida além do oferecido pelas tribos nômades ou metrópoles de Quéops. 

As tempestades de areia são um perigo constante em Quéops. Além de impedir a clara visão, soterrar e desenterrar ruínas e criar o fluxo natural das dunas, qualquer viajante que trafegue na ventania arenosa será rasgado e mutilado pela areia cortante e sofrerá queimaduras pelo calor insuportável que a tempestade carrega. 


Fases de uma tempestade de areia em uma cidade-oásis bem-estruturada.

Uma tempestade de areia pode ser repentina e durar apenas alguns minutos. Vez ou outra, elas duram bastante tempo, destruindo e soterrando cidades desestruturadas.  Qualquer viajante que encare uma tempestade de areia ao longe deve preocupar-se em encontrar algum abrigo, até que ela se esvaia. 


Sha'grath

Os Sha'grath são os orcs do deserto. Inimigos pestilentos e desorganizados que tentam, a todo custo, ferir e diminuir as defesas do povo do deserto. 

A muito os sha'grath não são uma civilização grandiosa - como eram em tempos passados - eles vivem como nômades, disfarçando-se no meio do deserto e emboscando inimigos desavisados. Um xamã sha'grath é conhecido por sua capacidade de controlar serpentes e insetos, fabricar venenos poderosos e criar fortes tempestades de areia.

A antiga divindade dos sha'grath, Absudalûr, era um deus de pragas, venenos e insetos, mas, de acordo com as escrituras, o deus pestilento foi derrotado por Selloth em épocas passadas, transformado em rocha e abandonado para que seu corpo se esvaísse com o processo da erosão provocado pelas tempestades de areia e o tempo. Os sha'grath ainda veneram Absudalûr e planejam uma vingança de sangue que, de acordo com os líderes religiosos dos orcs do deserto, será a responsável por trazer de volta a divindade. 
Algumas vezes (que estão se tornando cada vez mais frequentes), os sha'grath se aliam aos anubites e múmias da Rainha de Jade, pois ambos possuem interesses em comum em relação aos escolhidos do deus-sol, entretanto, eles não se consideram aliados permanentes.


Canyons

As maiores cidades-oásis de Quéops foram erguidas no interior de grandes canyons. A rocha foi moldada e a formação perfeita de estradas, palácios e túmulos foram construídas. No interior desses paredões, masmorras antigas foram expurgadas e o mal que elas escondiam foram sanados.

Mas os canyons desabitados ainda escondem essas masmorras. Eles abrigam criaturas, feiticeiros e necromantes que se aproveitam da solidão esquecida dos corredores abandonados para praticar seus estudos profanos. Masmorras inteiras podem ter suas entradas nos paredões de areia e pedra e se aprofundarem por muitos metros abaixo do deserto.

As portas de entrada dessas masmorras são constantemente seladas e desenterradas pelas tempestades de areia. Algumas vezes, escondidas nas profundidades dos corredores tortuosos dessas masmorras, pragas antigas provocadas por espíritos corruptos de vingança são libertadas e a única forma de impedi-las de vez é expulsando o mal adormecido a muito tempo diretamente em seu esconderijo.